Por que ainda não acabamos com a sífilis congênita?

A sífilis congênita é uma doença grave, que pode causar abortamento espontâneo e sequelas ou a morte de recém-nascidos.

 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) calcula que haja cerca de 300 mil mortes fetais e neonatais (logo após o nascimento) por ano no mundo por causa da sífilis congênita (SC). No Brasil, a doença foi detectada em 24.668 crianças com menos de 1 ano em 2017.

A sífilis, também chamada de lues, é uma doença infecto-contagiosa causada pelo Treponema pallidum, que ocasiona lesões cutâneas e pode comprometer outros tecidos, em especial os sistemas cardiovascular e nervoso.

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É considerada uma infecção sexualmente transmissível, mas também pode ser transmitida verticalmente (de mãe para feto) ou pelo contato com o sangue contaminado.

Quando a doença atinge o feto é chamada de sífilis congênita, doença muito grave, que pode causar má-formação do feto, aborto espontâneo e morte fetal. Na maioria das vezes, porém, os seguintes sintomas aparecem nos primeiros meses de vida: pneumonia, feridas no corpo, alterações nos ossos e órgãos dos sentidos (causando cegueira, por exemplo), além de comprometimento do desenvolvimento mental.

Pode ser dividida em recente (SCR), em que os sinais e sintomas aparecem nos primeiros dias ou meses de vida, e tardia (SCT), quando a doença se manifesta mais tarde e seus sintomas são equivalentes aos da sífilis adquirida secundária ou terciária.

 

Números da sífilis congênita

 

Desde 1986, a doença é de notificação compulsória no Brasil, o que significa que agentes de saúde são obrigados a registrar todos os casos da doença no Sistema de Agravos de Notificação (Sinan).

Em 1993, o Ministério da Saúde lançou um projeto de eliminação da sífilis congênita como um problema de saúde pública, em consonância com a proposta de controle do agravo nas Américas, formulado pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e pela OMS. A meta era reduzir a incidência da doença a valores menores ou iguais a 1 caso por 1000 nascidos vivos até o ano de 2000.

O objetivo não foi atingido: em 2011, o Brasil apresentou uma taxa de 3,3 casos por 1000 nascidos vivos, principalmente nas regiões Nordeste (3,8 casos/1000 nascidos vivos) e Sudeste (3,6 nascidos casos/1000 nascidos vivos).

Entre 1998 e junho de 2012, foram notificados no Sinan 80.041 casos de sífilis congênita em menores de 1 ano de idade no país. A região Sudeste registrou 45,9% desses casos, seguida do Nordeste (31,4%), do Norte (8,7%) do Sul (7,7%) e do Centro-Oeste (6,3%).

Em 2017, foram notificados no Sinan quase 119.800 mil casos de sífilis adquirida; 49.028 casos de sífilis em gestantes; 24.668 casos de sífilis congênita, com 206 óbitos.

Dados do Boletim Epidemiológico de Sífilis 2018, publicado em novembro de 2018 pelo Ministério da Saúde, apontam aumento no número de casos da doença no Brasil em todos os cenários da infecção. Em comparação com o ano de 2016, houve aumento de 28,5% na taxa de detecção em gestantes, 16,4% na incidência de sífilis congênita e 31,8% na incidência de sífilis adquirida.

 

 

Dermatologia sanitária

 

O Centro de Saúde Escola Geraldo de Paula Souza, localizado na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), possui um serviço de dermatologia sanitária que atende gratuitamente casos de IST, câncer de pele, hanseníase e dermatoses ocupacionais. O prof. dr. Luiz Jorge Fagundes é diretor clínico do serviço e lembra que entre 2014 e 2017 houve falta de penicilina, antibiótico utilizado para tratar a sífilis, o que fez disparar os casos de SC em vários países, incluindo o Brasil.

“A penicilina é um medicamento barato, usado para tratar uma doença que em geral atinge a população mais socialmente vulnerável, os laboratórios não têm interesse em produzi-la”, conta o médico. A situação se agravou ainda mais porque outros antibióticos usados para substituir a penicilina em casos de sífilis não servem para tratar os bebês com a doença.

O aumento do número de casos também pode ser atribuído, em parte, ao aprimoramento do sistema de vigilância e à ampliação da utilização de testes rápidos. Em 2017, alguns critérios de notificação da SC foram modificados para diminuir as subnotificações. Ficou definido, por exemplo, que todas as mulheres diagnosticadas com sífilis durante o pré-natal, parto e/ou puerpério devem ser notificadas como caso de sífilis em gestantes, e não como sífilis adquirida. “Certamente esses números são mais altos. Existe muita subnotificação porque muitas mulheres não vão ao médico durante a gravidez”, revela o dr. Fagundes.

 

Mulheres negras

 

No Brasil, a população mais afetada pela sífilis são as mulheres, principalmente as negras e jovens, na faixa etária de 20 a 29 anos, sem curso superior. Esse grupo representa 14,4% de todos os casos de sífilis adquirida e em gestantes notificados em 2018. Na comparação por sexo, as mulheres de 20 a 29 anos alcançam 26,2% do total de casos notificados, enquanto os homens nessa mesma faixa etária representam apenas 13,6%.

Homens evitam buscar tratamento, o que justifica os casos de reinfecção das parceiras sexuais. Muitas mulheres só descobrem a doença no momento do parto. Esses dois fatores ajudam a explicar a maior incidência em mulheres.

 

Importância do pré-natal

 

O Ministério da Saúde recomenda que todas as gestantes realizem ao menos dois testes para detecção da sífilis, um no início da gravidez e outro no terceiro semestre de gestação. Isso porque a gestante pode se contaminar em qualquer momento da gravidez. “Tratar a gestante com sífilis é simples, a dificuldade está em detectarmos os casos, pois muitas mulheres, em especial as com menos recursos socioeconômicos, não fazem o pré-natal”, explica o dr. Fagundes.

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Para o médico, ainda há muito preconceito em relação às infecções sexualmente transmissíveis e poucas ações de prevenção. “Ninguém quer falar no assunto. Como os pacientes irão reconhecer os sintomas se não podemos falar nem mostrar imagens que os ajudem?”, indaga.

A dificuldade para identificar os sinais e sintomas da doença atinge os próprios profissionais de saúde que, segundo o dr. Fagundes, muitas vezes não recebem formação adequada. “Não há serviços de dermatologia sanitária na maior parte do país”, constata.

O tratamento da doença é simples e barato, mas graças à escassez de campanhas de prevenção e educação sexual, falta de assistência médica que garanta que grávidas sejam testadas e tratadas com rapidez e eficiência e produção de penicilina centrada em poucas empresas estrangeiras  fazem com que uma doença que deveria estar praticamente erradicada ainda atinja tantos bebês no Brasil.

 

Sinais e sintomas da sífilis

 

A sífilis se manifesta em três estágios diferentes:

  • Primária: Surge uma ferida, geralmente única, no local de entrada da bactéria (pênis, vulva, vagina, colo uterino, ânus, boca ou outros locais da pele), que aparece entre 10 a 90 dias após o contágio. Essa lesão é rica em bactérias e em geral não dói, não coça, não arde e não tem pus, podendo estar acompanhada de ínguas (caroços) na virilha. Quase sempre a ferida desaparece espontaneamente, sem deixar sinais.
  • Secundária:  Os sinais e sintomas surgem entre seis semanas e seis meses do aparecimento e cicatrização da ferida inicial. Podem aparecer manchas no corpo, que geralmente não coçam, incluindo palmas das mãos e plantas dos pés. Essas lesões são ricas em bactérias. Também podem ocorrer febre, mal-estar, dor de cabeça e ínguas pelo corpo.
  • Terciária: Pode surgir de dois a 40 anos depois do início da infecção. Costuma apresentar sinais e sintomas, principalmente lesões cutâneas, ósseas, cardiovasculares e neurológicas, podendo levar à morte.

A doença, entretanto, pode não causar sintomas ou eles podem passar despercebidos. Assim, é recomendável que pessoas com vida sexual ativa usem preservativo em todas as relações sexuais e façam testagem anual para detectar a doença. Se tratada logo no início, a sífilis não deixa sequelas.

Se estiver grávida, exija que o médico que acompanha seu pré-natal peça dois exames de sífilis durante a gestação.

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