Podemos apostar na imunidade de rebanho? | Coluna

Quantas mortes são aceitáveis para chegarmos à imunidade de rebanho? Cem mil? Quinhentos mil?

 

Desde que chegou ao país, a pandemia de Covid-19 fez os brasileiros se familiarizarem com expressões e conceitos de epidemiologia (área da Medicina que estuda a distribuição e os determinantes dos problemas de saúde), como taxa de transmissão, curva epidemiológica e crescimento exponencial.

Nos últimos dias, voltou à mídia um termo que já havia sido colocado de lado: imunidade de rebanho, também conhecida como imunidade coletiva. Ela ocorre quando, em determinada comunidade, a quantidade de pessoas que entraram em contato com um agente infeccioso, como um vírus, ou tomaram a vacina contra ele desenvolve imunidade e, assim, acaba oferecendo uma espécie de barreira de proteção aos não imunes. Com isso, o agente tem dificuldade de circular e o número de casos diminui.

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Alguns países, como Reino Unido e Suécia, chegaram a cogitar o uso dessa estratégia no início da pandemia, permitindo que os menos suscetíveis a desenvolver um quadro grave de Covid-19, como jovens sem doença crônica, circulassem sem restrições. Os governos mudaram de ideia quando o número de mortes começou a aumentar significativamente, revelando a necessidade de toda a população adotar as medidas de prevenção da doença, como distanciamento social e uso de máscaras.

Então por que o tema voltou recentemente às manchetes de veículos de comunicação?

No fim de junho de 2020, foi publicado na revista científica “Science” um estudo sugerindo que a taxa estimada anteriormente para atingir-se a imunidade coletiva para Covid-19, de cerca de 70%,  é muito alta, e que seriam suficientes cerca de pouco mais de 40% de infectados para obtê-la.

“Não podemos esquecer que esse é um modelo matemático, e não um estudo populacional”, ressalta Daniel Dourado, médico e advogado sanitarista e pesquisador do Núcleo de Pesquisa em Direito Sanitário da Universidade de São Paulo (USP), em live a este Portal, em 15/7/20. Isso significa que o modelo não foi observado em uma população real.

O médico epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP Paulo Lotufo também faz a mesma observação. “O estudo é um exercício intelectual, sem qualquer outra aplicação”, afirma.

É importante dizer que nem os próprios autores do estudo sugerem que se afrouxem as medidas de prevenção em busca de uma suposta imunidade coletiva; essa interpretação sequer é mencionada no estudo.

 

Imunidade

 

Outro ponto é que ainda não conhecemos todos os elementos envolvidos na produção da imunidade da Covid-19. Não sabemos se os anticorpos produzidos para combater o Sars-CoV-2, vírus causador da doença, são de fato neutralizantes, ou seja, se eles protegem contra uma reinfecção. Também não sabemos se essa imunidade é duradoura, pois a Covid-19 é uma doença nova, conhecida há poucos meses.

Outro estudo, publicado na revista “Nature”, sugere que os linfócitos T, importantes células de defesa do organismo, também tenham papel na imunidade contra a Covid-19. Essa pode ser uma boa notícia, mas ainda são necessários mais estudos para compreendermos todos os mecanismos envolvidos nessa proteção.

Sem vacina ou tratamento específico para a doença e sem sabermos como se dá a imunidade contra o novo coronavírus e quanto tempo ela dura não podemos contar com a imunidade coletiva, ao menos por enquanto.

 

Brasil

 

Dourado enfatiza, também, que mesmo que seja necessária uma porcentagem menor de infectados para obtermos a imunidade coletiva, ainda não sabemos se há alguma população do mundo que tenha atingido esse número, já que a forma atual para estimar o número de imunizados (testes sorológicos) detecta apenas a imunidade por anticorpos.

O Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos calcula que a taxa de letalidade da Covid-19 seja de cerca de 0,5% a 1%, dependendo de fatores como acesso à saúde de qualidade e idade da população.

Vamos supor que de fato sejam precisos 40% de infectados para termos a imunidade coletiva. O Brasil tem 210 milhões de habitantes, portanto estaríamos contando com 84 milhões de infectados. Seguindo a taxa de letalidade de 0,5%, considerada otimista por muitos pesquisadores, teríamos 420 mil mortos.

Além disso, para se atingir a imunidade coletiva não há um número fixo, ela depende da taxa de transmissão do vírus, que varia de acordo com nossas interações e comportamentos. Em cidades grandes, em que há aglomerações frequentes, essa taxa tende a ser mais alta do que em locais com baixa circulação de pessoas, por exemplo.

Da mesma forma, a imunidade coletiva pode chegar antes, se a taxa de transmissão diminuir, ou mais tarde, caso ela aumente. Se deixarmos o vírus circular livremente, sem adotar as medidas de prevenção, demoraremos mais tempo para vencer a pandemia e teremos muito mais óbitos.

Lembremos, ainda, que a Covid-19 é evitável, e que já sabemos como controlá-la até que a ciência descubra uma vacina. A ideia de que quase toda a população irá fatalmente contrair o vírus, independentemente do que façamos, é temerária no caso de uma doença com essa taxa de letalidade.

Não podemos considerar como política pública de enfrentamento da pandemia uma estratégia que exija o sacrifício de milhares de pessoas. Quantas mortes são aceitáveis para que possamos circular sem restrições? Cem mil? Quinhentas mil? Em um país que preze pela vida de seus cidadão, nenhuma.

 

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Drauzio Varella

Um terço dos brasileiros desconfia da ciência | Coluna

A desconfiança na ciência é comum entre os brasileiros, que preferem crer na religião quando esta entra em conflito com preceitos científicos.

 

Karl Popper, nascido em 1902 na Áustria, foi um dos maiores filósofos da ciência do século 20. Ficou muito conhecido por questionar os preceitos positivistas da época, que viam na observação o caminho para se chegar ao conhecimento científico. Para Popper, a pura observação dos fenômenos não era suficiente para garantir que determinada situação se repetiria sempre.

Em um de seus exemplos mais célebres, o filósofo afirmou que mesmo observando milhares de cisnes brancos, era impossível assegurar que todos os cisnes são brancos, pois bastaria surgir um único cisne negro para derrubar o preceito. Assim, observações particulares não poderiam ser generalizadas, e a simples observação de um fenômeno não provaria sua verdade absoluta. Era preciso primeiro formar uma hipótese baseada, também, na intuição, para depois comprovar sua consistência por meio do método científico.

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O mundo mudou muito desde a época do filósofo. Hoje, basta uma pessoa relatar um fenômeno nas redes sociais para que ele seja considerado fato. Estabelecer relações de causa e efeito com base em histórias pessoais não é novidade, mas a velocidade com que elas se espalham atualmente é surpreendente.

Se antes apenas os conhecidos da tia do vizinho ficavam sabendo que a senhora supostamente teria se curado de câncer de estômago com um chá, agora a história pode atingir milhares de pessoas em pouco tempo. E fazer um tremendo estrago, gerando não apenas curiosidade acerca do “medicamento”, mas dando origem a toda sorte de boatos e questionamentos.

A quantidade de fake news em saúde é tão grande que o Ministério da Saúde criou um serviço que pode ser acessado via WhatsApp para verificar a veracidade de rumores acerca de temas que vão desde a segurança das vacinas até a existência de estudos que comprovariam propriedades curativas de frutas.

A pesquisa Wellcome Global Monitor 2018, feita pelo Instituto Gallup e divulgada no primeiro semestre de 2019, representa o maior estudo mundial sobre a forma como as pessoas pensam a ciência e os principais desafios da área da saúde. Os pesquisadores entrevistaram 140 mil pessoas, sendo mil brasileiros com mais de 15 anos. No ranking dos 144 países participantes, o Brasil ocupa apenas a 111a posição entre os que mais confiam na ciência.

Para 35% dos brasileiros, a ciência não merece confiança, e 1 em cada 4 pessoas acha que a produção científica não contribui para o país.

Para a matemática, filósofa e professora Tatiana Roque, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), as pessoas não veem o resultado da contribuição científica em sua vida cotidiana, já que muitos cientistas costumam se isolar e têm dificuldade de comunicação. “Ultimamente, há um nítido aumento da preocupação dos cientistas em se comunicar melhor com a sociedade, mas ainda é um movimento incipiente”, afirma Roque. Sem conhecer os resultados das pesquisas científicas e com pouco ou quase nenhum contato com quem a produz, a população não vislumbra seus benefícios e tampouco desenvolve uma relação de confiança com a ciência.

Por outro lado, a necessidade de mostrar resultados pode comprometer a autonomia, essencial para que a ciência prospere. Foi a liberdade em relação ao Estado e à indústria que permitiu o desenvolvimento de pesquisas e das próprias ciências. Se houvesse apenas ciências aplicáveis, o que seriam das Humanas ou de pesquisas que não pudessem ser diretamente aplicadas?

“A pesquisa científica não precisa ser sempre aplicada, nem aplicável. Mas é necessário levar em conta a possibilidade de que os resultados de nossas pesquisas interessem a um público mais amplo. No fim das contas, escrevemos, na maioria das vezes, somente para os pares. A descrença na ciência é também uma resposta a esse isolamento”, completa a professora da UFRJ.

 

Educação formal

 

Enquanto apenas 13% dos brasileiros confiam muito na produção científica, na Bélgica esse índice chega a 42% da população. Países mais desenvolvidos que o Brasil e cuja população tem índices de educação melhores, como Austrália, Alemanha, Canadá e França, apresentam taxas muito mais altas de confiança na ciência: 33%, 25%, 28% e 21%, respectivamente.

O Programa Nacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) é coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e avalia estudantes matriculados a partir do 7º ano do ensino fundamental na faixa etária dos 15 anos. No último Pisa, com dados de 2015, entre os 70 países avaliados o Brasil ficou em 59º lugar em leitura, 63º em ciências e 65º em matemática, perdendo para outros países latino-americanos como Chile, México, Costa Rica, Argentina e Colômbia.

A média de tempo de estudo dos brasileiros também é mais baixa que a dos outros países do Mercosul (Argentina, Paraguai e Uruguai) e do Brics (Rússia, Índia, China e África do Sul), segundo o relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da ONU, divulgado em 2017: 7,8 anos, ante 8,6 do Mercosul e 8,8 dos países do Brics. “Claro que a educação formal tem relação com a crença na ciência, mas não devemos atribuir a uma suposta ignorância a descrença das pessoas de menor renda. Essa resposta fácil parte de um excesso de autoconfiança – e de autocomplacência – por parte da elite intelectual. Talvez as pessoas de renda mais baixa achem que a ciência não lhes diz respeito”, conclui Roque.

Por outro lado, políticas públicas de saúde mais amplas, cujos benefícios chegam a um maior número de pessoas, costumam contar com o apoio e a adesão da maioria da população. Um exemplo de uma política bem feita e que traz resultados visíveis para os brasileiros é a Política Nacional de Vacinação, uma das melhores do mundo. Não à toa, apesar de haver um nível alto de descrença na ciência, 80% das pessoas entrevistadas pela Wellcome Global Monitor consideram as vacinas seguras e eficazes (na França, por exemplo, 1/3 das pessoas não confia nas vacinas, apesar de os franceses ocuparem uma posição bem melhor que a do Brasil no Pisa).

“Não sei ao certo, é um palpite, mas acho que a confiança nas vacinas está descolada da confiança mais ampla na ciência. Justamente porque, no caso das vacinas, tivemos sucesso em mostrar o quanto podem servir como um cuidado público (dos poucos que funcionam). Arrisco dizer que, se as vacinas fossem pagas, e não parte de campanhas públicas de vacinação gratuita, as pessoas não confiariam tanto”, continua Roque.

 

Religião

 

Se cientistas e aqueles que propagam o pensamento científico falham em comunicar a importância da ciência, a religião, por sua vez, estabelece uma relação de proximidade com seus seguidores. A Wellcome Global Monitor mostrou que 75% dos brasileiros escolhem sua religião quando esta discorda da ciência. Considerando que apenas 4% dos entrevistados disseram não ter religião, é possível afirmar que a maioria dos brasileiros confia mais na religião do que na ciência quando há discordância entre ambas.

“O papel das igrejas amplia-se no vácuo deixado pelas políticas sociais, que vêm abandonando, desde os anos 1990, a ideia de proteção, de seguridade coletiva, de direitos do cidadão. Se não podem acreditar nos valores sociais, só lhes restam os valores individuais, apoiados pela família tradicional e pela igreja conservadora. Não acho que a religião seja um empecilho [para acreditar na ciência]. O que ocorre hoje é que há um modo de praticar a religião que estende sua influência a domínios que não costumavam ser da religião, e sim da política”, conclui Roque.

Portanto, não basta ensinar ciência nas escolas, embora isso seja muito importante. É necessário que as pessoas percebam sua importância, que sintam seus benefícios no dia a dia, aprendam a desenvolver o pensamento científico e a confiar nele.

Isso não implica, obviamente, refutar outros saberes e formas de conhecimento, ao contrário, o excesso de autoconfiança por parte daqueles que estudam e fazem ciência pode afastar ainda mais as pessoas que não dominam o conhecimento científico. Em um momento em que a desinformação e os boatos ganham as redes sociais e a internet em velocidade galopante, a ciência pode e deve ser vista como aliada na luta contra a desinformação.

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Drauzio Varella