Luto pode ser ainda mais difícil em tempos de pandemia

Sentimentos como tristeza, medo e melancolia são comuns neste momento e devem ser acolhidos.

 

Enquanto escrevo esse texto, na segunda semana de maio de 2021, o Brasil já perdeu mais de 420 mil pessoas para a covid-19. Se considerarmos a subnotificação, esse número pode ser ainda maior. Como a morte de alguém afeta várias pessoas à sua volta, não é difícil concluir que, neste momento, há milhões de pessoas em luto no Brasil.

Se você não conhece alguém que morreu de covid-19, provavelmente conhece alguém que perdeu uma pessoa para a doença.

Quando falamos em luto, cada pessoa tem um tempo para processar a informação e organizar os seus sentimentos. Mas existem fatores que podem tornar o luto ainda mais difícil, como é o caso da pandemia. Hoje, muitos pacientes morrem no hospital após um longo período de internação sem que a família possa fazer visitas ou se despedir da forma que gostaria, e isso é muito doloroso.

Assista: Dr. Drazuio fala sobre luto e despedida em meio à pandemia

A convivência no geral também está mais restrita (as pessoas não podem se reunir normalmente, como antes) e os rituais como velório e sepultamento têm acontecido de forma adaptada. Além disso, precisamos lidar com o medo de adoecer e morrer, o que torna a situação ainda mais delicada.

 

Sentimentos “ruins” precisam ser sentidos

É comum validarmos apenas os sentimentos considerados “bons”, como alegria e gratidão. Esse costume muitas vezes impede a manifestação de sentimentos ditos “ruins” de maneira saudável. “Diante do cenário atual, é normal e necessário que sentimentos como tristeza, medo, melancolia e desespero sejam sentidos, acolhidos. Esses sentimentos devem ser manifestados, pois assim são elaborados de forma positiva e adequada”, explica a psicóloga Carla Freitas.

Em entrevista ao podcast Entrementes em janeiro de 2021, a professora livre-docente sênior do Instituto de Psicologia da USP Maria Júlia Kovács explicou que a elaboração do luto vem a partir do pensamento “como vou continuar a minha vida sem essa pessoa?”. “É um trabalho psíquico, que demanda energia. Por isso, muitas vezes o enlutado não tem vontade de fazer as coisas, não tem vontade de comer ou come demais, não consegue dormir ou dorme demais”, explicou.

Veja também: Quando o luto exige ajuda profissional

Após um tempo, os sentimentos vão se organizando e a pessoa vai retomando sua vida. Mas isso não significa que o processo acabou e que ela não mais vai pensar na pessoa que morreu. “Você não vai esquecer, mas vai aprender a conviver sem a presença física da pessoa. E tem dias que são mais difíceis, mais pesados, e tem dias que a gente vai vivendo a vida. O processo de luto não tem tempo determinado”, disse a especialista. “Tem gente que precisa falar muito, tem gente que não quer falar. Tem gente que chora, tem gente que não chora. Não tem uma etiqueta de como deve ser.”

Mas precisamos sempre ter atenção em relação à duração e intensidade dos sentimentos. Sintomas como tristeza, falta de ânimo, perda ou excesso de apetite, insônia e ansiedade merecem atenção profissional, se forem recorrentes. Devido ao momento de fragilidade atual, a recomendação da psicóloga Carla Freitas é buscar apoio psicológico após três meses de sintomas.

 

Novos rituais de despedida

Para muitas pessoas, velar e sepultar um ente querido que faleceu é um momento importante e simbólico de despedida que auxilia na elaboração do luto. Contudo, por causa da situação que estamos vivendo, em que o distanciamento social é uma medida importante para conter a disseminação do coronavírus, muitas vezes esses rituais não podem ser realizados ou são realizados de maneira restrita (para um pequeno grupo de pessoas e por um tempo muito reduzido, por exemplo).

Sendo assim, segundo Carla, pode ser necessária a construção de novas estratégias para formatar essa elaboração, buscando a compreensão e o conforto diante da morte. Ritos religiosos, conforme a crença de cada pessoa, podem ser reconfortantes nesse momento (sempre respeitando as medidas sanitárias). Outras opções que podem ser válidas incluem: realizar um desejo do ente querido, fazer uma espécie de memorial com fotos ou promover um encontro virtual para que as pessoas próximas relembrem momentos juntos e prestem sua homenagem.

 

Assista: Psicóloga fala sobre luto na pandemia.

 

Como ajudar uma pessoa em luto

Muitos não sabem como lidar com a situação e consolar quem está sofrendo. O mais importante é se mostrar presente, disponível, mas sempre respeitando o momento da pessoa. Converse, escute, acolha. Muitas vezes, ajudá-la a se distrair um pouco por alguns minutos ou horas já pode ser uma forma de alívio.

Evite frases de conforto como “foi melhor assim” ou “Deus quis assim”. “Nesse momento, o acolhimento é uma das principais formas de auxílio, assim como a empatia e a paciência. O acolhimento do choro e amparo diante das expressões emocionais são fundamentais para a pessoa enlutada”, afirma a psicóloga.

Veja também: Artigo dá dicas para ajudar uma pessoa em luto

Segundo ela, o luto pode durar dias, meses ou anos, e isso é muito particular. “É necessário muitas vezes a elaboração de um novo lugar social ou simbólico, como por exemplo na perda de um filho ou esposo (a), em que a pessoa precisa lidar com uma nova identidade social diante do luto”, completa.

Ajudar a pessoa com pendências do dia a dia – que podem demandar uma energia que a pessoa não tem nesta fase – também pode ser muito útil, por exemplo, auxiliar nos trâmites de enterro, preparar algumas refeições, fazer compras, entre outros.

 

Como falar sobre o luto com as crianças

A perda de uma pessoa querida também é sentida pelas crianças. Muitas perderam avós, tios, pessoas próximas da família ou os próprios pais. Falar sobre esses sentimentos com elas é fundamental. “Muitas pessoas acham que as crianças não conseguem compreender a finitude da vida concretizada na morte. Porém, se forem preparadas de forma adequada, elas compreendem”, explica a psicóloga.

Os pais, responsáveis ou adultos que tenham vínculo com a criança podem conversar sobre esse assunto usando recursos como livros e filmes. “Ao assistir ou ler junto com a criança, sempre pergunte o que ela sentiu naquele momento, qual sensação ela teve e como ela entendeu aquela situação, e é fundamental que demonstre calma e segurança ao falar sobre o assunto. Indico os filmes ‘O Rei Leão’, ‘Frozen’, ‘Viva – A vida é uma festa’ e ‘Divertidamente’. Na categoria livros, eu indico ‘Lino’, que é um livro que trata a morte de forma simbólica e trabalha a ausência e lugar de vazio, e ‘O pato, a morte e a tulipa’, que trata a morte com naturalidade e consequência da vida”, recomenda.

Veja também: Saúde mental das crianças pode ser afetada pela pandemia

Falar que a pessoa “está viajando” ou que “virou estrela” não é boa ideia. O ideal é evitar mentiras sobre o assunto, ter empatia e conversar com a criança de forma clara para que ela possa entender. “Se atente à idade e capacidade cognitiva da criança, para que a comunicação seja assertiva e eficaz”, orienta Carla.

 

Luto coletivo

Com tantas mortes acontecendo desde o início da pandemia, o sentimento de luto coletivo ficou muito evidente. “Se pensarmos no simbolismo da morte, podemos observar que seus rituais são coletivos, como, por exemplo, o sepultamento, as procissões em cidades do interior, o dia dos mortos no México e em demais manifestações ao redor no mundo. E universalmente estamos enfrentando a mesma situação, e lidando com os mesmos números de morte diariamente nos telejornais, porém com a impossibilidade de estarmos juntos”, comenta a psicóloga.

Para cada pessoa, o impacto dessas mortes será diferente, dependendo de suas crenças, sua relação com a sociedade e seu estado psicológico e emocional.

Veja também: O que é preciso fazer quando um familiar morre?

No último dia 4 de maio, tivemos a notícia da morte do ator Paulo Gustavo, aos 42 anos, que causou uma grande comoção em muitos brasileiros. “A representação de uma pessoa para a sociedade causa esse sentimento, ou seja, diversas pessoas nutriam um sentimento de identificação e admiração pelo trabalho dele, e mesmo sem conhecer ou conviver, sofrem com essa ausência representativa. Além de Paulo, morreu também uma personagem extremamente simbólica, a Dona Hermínia, que representava muitas mães”, afirma Carla.

Mesmo quem não perdeu alguém próximo pode experimentar esse sentimento de perda pelo fato de vermos tantas mortes ocorrendo ao mesmo tempo e também pela perda da nossa rotina de antes da pandemia, a perda de um emprego ou daquilo que gostávamos de fazer. Esses sentimentos são válidos e devem ser acolhidos.

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Drauzio Varella

DrauzioCast #151 | Perda auditiva

A otorrinolaringologista dra. Milene Bissoli explica as possíveis causas da surdez, do nascimento à terceira idade, e dá dicas de como proteger as funções auditivas.

 

 

 

O Brasil tem mais de 10 milhões de pessoas com surdez. Apenas 9% delas nasceram com essa condição. A grande maioria vai perdendo a audição ao longo da vida, especialmente nas últimas décadas. Apesar de a surdez ser relativamente comum, a gente só toma conhecimento das causas e dos tratamentos possíveis quando essa perda acontece com algum amigo ou parente próximo.

Para esclarecer as principais dúvidas sobre esse tema, dr. Drauzio conversa com a dra. Milene Bissoli, médica otorrinolaringologista da equipe de urgência e internação do Hospital Infantil Sabará, em São Paulo, e membro da Academia Brasileira de Otorrino Pediátrica.

 

Drauzio – Milene, então vamos por partes. A partir do nascimento, quais seriam as principais causas de surdez? Por que algumas crianças nascem surdas?

Dra. Milene Bissoli – Na verdade, para nascer surdo, existem duas condições: podem ocorrer infecções durante a gestação, infecções da mãe que podem acarretar em perda auditiva já dentro do útero; ou podem ocorrer questões genéticas, ou seja, desde o nascimento há uma formação inadequada das estruturas da orelha, seja da orelha interna (parte que faz a amplificação do som), seja da orelha média (parte que faz a transformação da onda mecânica do som em informação para o nosso cérebro). Seria um “defeito da fabricação”, uma alteração genética, levando a esse tipo de perda.

 

Drauzio – Como os pais podem identificar a surdez? Eu lembro de um filme que eu vi há muitos e muitos anos, em branco e preto, sobre o problema da surdez em recém-nascido. A mãe é que descobriu a surdez da criança e o pai não acreditava, dizia: “Não, você está exagerando, é lógica que ela escuta”. Tem uma cena em que ele abre uma porta que range e a criança olha. Ele diz: “Olha, está vendo?”. Mas a mãe falou: “Não, ela olhou, porque abriu a porta e entrou a luz”. Quais são os primeiros sinais de que a criança tem um problema auditivo?

Dra. Milene Bissoli – Desde que a criança está na barriga, já há resposta do bebê ao som. Durante o trabalho de parto, por exemplo, uma das coisas que podemos usar para ver a vitalidade do bebê é aquela buzina. Algumas mães até passaram por isso, você dá uma buzinada e vê a resposta do bebê. Então, a resposta ao som deve estar presente desde a vida intrauterina. 

 

Drauzio – Com quanto tempo de gravidez ela deve começar?

Dra. Milene Bissoli – Aos dois, três meses de gestação, isso já está formado o suficiente. Mas, para perceber a resposta, o ideal é só no final da gestação. Não tem como aferir antes. No final da gestação, com som intenso e perto da barriga, o bebê já pode reagir. 

Desde o nascimento, a gente já pode buscar pelos sinais. A gente tem o teste da orelhinha, que é uma triagem feita na maternidade, determinado por lei. Mas mesmo alguns bebês que passam no teste da orelhinha podem, sim, ter perda auditiva. 

Então, o que é importante estar atento: reação ao som, à voz da mãe. O bebê a escuta desde os primórdios, então se ele não reagir, é preciso olhar com carinho para a questão da audição. Além disso, atentar-se às respostas ao som, de bater a porta, de alguém falar quando está na sala para ver se a criança se vira na direção do som. Tudo isso, desde pequenininho, a gente já pode notar.

 

Veja também: Surdez | Entrevista

 

Drauzio – Explica para a gente o teste da orelhinha.

Dra. Milene Bissoli – O teste da orelhinha é um teste de triagem, é bem rápido e indolor. É colocado um aparelhinho dentro do ouvido da criança para ver a resposta de um tipo específico de célula que a gente tem na nossa cóclea, na orelha interna. Quando essas células estão funcionando adequadamente, elas emitem um som em resposta ao que é dado. O aparelho joga um som, a cóclea responde e a gente capta essa resposta. Se isso está funcionando adequadamente, a gente fala que a criança passou no teste.

 

Drauzio – Crianças que são filhas de pai ou mãe surdos têm mais risco de nascer sem conseguir ouvir?

Dra. Milene Bissoli – Sim. Temos uma causa importante de surdez que é a genética. Então, uma vez que a gente não tenha descoberto a causa da surdez do pai ou da mãe ou a gente saiba que seja genética, a criança tem uma chance aumentada. Na maioria dos casos de surdez genética, a gente chama de herança recessiva. Geralmente a gente vai encontrar outros casos distantes na família e, se for o pai ou a mãe, aumenta bastante a chance da criança ter problema auditivo.

 

Drauzio – Claro que nesses casos, só se o pai ou a mãe tiverem surdez desde o nascimento. Se desenvolvem a surdez no decorrer da vida, não tem como passar para os filhos, né?

Dra. Milene Bissoli – Exato. Essa surdez que a gente chama de genética congênita, geralmente está presente nos pais desde o nascimento. Existem outras causas de surdez progressiva que podem acontecer também, que são mais raras e podem ser transmitidas.

 

Drauzio – Milene, e as pessoas que nascem com audição plena e acabam desenvolvendo surdez por doença? Quais são as principais?

Dra. Milene Bissoli – Tem algumas causas de perda auditiva. Por exemplo, crianças que tiveram parto prematuro e precisam ficar um tempo prolongado na UTI. O uso de antibióticos no período logo após o nascimento é um fator importante para a perda auditiva. Se a gente tem problemas no parto, como a falta de oxigênio, também é uma causa de perda auditiva. Infecções no início da vida, principalmente meningite. Meningite no Brasil é uma das principais causas de surdez adquirida em qualquer faixa etária, mas principalmente nas crianças. Traumas bem extensos também podem causar perdas auditivas. 

E na infância a gente tem algumas causas de surdez temporária. Então, por exemplo, se a criança está com uma otite, naquele momento, eu posso garantir que ela não está escutando bem. Ela não está totalmente surda, mas ela tem uma diminuição da audição. Isso é um fator importante na infância. Cada episódio de otite sempre vai cursar com uma diminuição da audição e, se isso for recorrente, pode afetar o desenvolvimento da fala dela, por exemplo.

 

Veja também: Os surdos têm voz | Leonardo Castilho

 Drauzio – É possível confundir a perda auditiva com a falta de atenção da criança? “Ah, ela não presta atenção, por isso que ela não respondeu quando eu chamei”.

Dra. Milene Bissoli – É uma questão bem interessante. Para perdas mais leves às vezes acontece isso. O pai acha que “não, ele está só desatento”, mas a mãe diz “não, ele não escuta bem”. Na dúvida, é importante avaliar a audição. É uma coisa que é relativamente simples de resolver, você diagnostica a perda auditiva, vê qual é a causa, trata e a criança tem uma funcionalidade normal. Mas, infelizmente, a gente tem uma taxa de diagnóstico de perda auditiva no Brasil ainda muito tardio. Mesmo com o teste da orelhinha, esse diagnóstico tardio pode influenciar em todo o decorrer do desenvolvimento da criança.

 

Drauzio – E nessas casas barulhentas que ficam com a televisão ligada em um volume alto ou ambientes barulhentos de um modo geral, isso pode causar perda auditiva na criança a médio e a longo prazo?

Dra. Milene Bissoli – O ruído é a principal causa prevenível de perda auditiva. Na criança, na parte do desenvolvimento da fala, o ruído é muito ruim. Além de pensar na perda auditiva a longo prazo – claro que varia de acordo com a intensidade e volume do ruído – a criança que está aprendendo a falar não consegue separar a voz da mãe, do pai, da pessoa que está cuidando dela do barulho da máquina de lavar ou da televisão, por exemplo. Eu atendo muitas crianças que têm um atraso de fala e, a primeira coisa que a gente indica é desligar tudo na casa, deixar a televisão desligada, ir brincar com a criança em um ambiente silencioso. A criança não sabe separar o que é ruído de fundo e o que é o som que interessa. Essa é uma capacidade cerebral adquirida e consolidada só a partir dos 7 anos, de uma maneira geral. Então, para a criança pequena, o ambiente silencioso, não só pensando a longo prazo mas naquele momento presente, é importante para o bom desenvolvimento da fala também.

 

Drauzio – E o cotonete que muitas mães usam para fazer uma boa higiene na orelha da criança?

Dra. Milene Bissoli – Eu li esses dias uma coisa muito engraçada, 

um meme de um amigo otorrino falando que “milhares de otorrinos falando uma coisa não conseguem combater uma propaganda”. É muito engraçado isso. A gente não precisa limpar o ouvido. O risco da gente usar o cotonete é acabar acumulando mais cera e empurrando-a para dentro da orelha, além de poder machucar. A criança se vira, se mexe e a gente pode ter trauma com sangramento no conduto auditivo e, às vezes, até na membrana timpânica. Então, não vale a pena, não precisa.

 

Veja também: Problemas de audição podem impedir a criança de falar

Drauzio – E nas crianças um pouco mais velhas e até nos adolescentes, essa coisa dos fones de ouvido que, às vezes, você passa a 10 metros e escuta a música que eles estão ouvindo ali direto?

Dra. Milene Bissoli – É perigosíssimo. Temos alguns dados americanos que até são um pouco antigos, da década passada, de que um em cada seis adolescentes têm perda auditiva pelo ruído. E essa é uma perda que a gente não consegue reverter. A gente não tem nenhum tratamento para recuperar essas células perdidas. Então, o fone de ouvido, principalmente se usado em um volume muito alto, é prejudicial. No máximo, na metade do volume e em intervalado, não usar o fone de ouvido a tarde inteira, porque isso vai levar a uma lesão grave e irreversível das células da cóclea em grande parte desses adolescentes.

 

Drauzio – Eu gostaria que você repetisse. Um em cada seis adolescentes?

Dra. Milene Bissoli – Isso, um em cada seis! É um estudo americano de 2005/2006 e, naquela época, em que a gente tinha menos fones de ouvido do que a gente tem hoje, um em cada seis tinham perda auditiva.

 

Drauzio – Quer dizer, é a perda auditiva naquele momento, né? Ainda na adolescência, não dali a 10 ou 20 anos.

Dra. Milene Bissoli – Exatamente, naquele momento. E a perda do ruído tem uma característica que ela não melhora. Uma vez que você perdeu, ela não melhora.

 

Drauzio – E essa perda auditiva que vai acontecendo no decorrer da vida? Ela costuma ser gradual, vai aumentando década por década, ou ela pode acontecer abruptamente, de uma hora para a outra?

Dra. Milene Bissoli – Existe uma entidade chamada de surdez súbita que é exatamente isso: está tudo bem na sua vida, de repente, perde a audição de um lado ou dos dois. As causas disso são diferentes da perda pela idade. Quando a gente fala de perda pela idade, a gente está falando de uma questão gradual mesmo. Pensando nesse aumento da expectativa de vida, eu sempre brinco que as pessoas da minha geração em diante vão chegar nos 90, 100 anos. A gente não tem dúvidas do “se”, temos dúvidas do “como”. E a perda auditiva é um fator importantíssimo para a função cognitiva. Pessoas com perda auditiva aos 50 anos vão performar pior no desempenho cognitivo aos 80 e aos 90. É geralmente gradual, em que a pessoa não se importa, porque funcionalmente aquilo está ok. Com o passar do tempo, isso vai afetando a conexão dentro do cérebro, o que gera problemas cognitivos não só na audição, mas no cérebro como um todo.

 

Veja também: O tormento do zumbido

 

Drauzio – E por que essa perda da audição acontece com a idade quase que inexoravelmente?

Dra. Milene Bissoli – Acima dos 80 anos, duas em cada três pessoas vão ter perda auditiva. É bastante gente. Por que isso acontece? Por perda de células, por questões vasculares (a irrigação de tecidos é uma questão do envelhecimento como um todo), por questões genéticas e uma somatória de fatores que vai levar a uma piora auditiva no decorrer da vida.

 

Drauzio – É possível prevenir a perda auditiva? Ou, pelo menos, diminuir o risco de que ela aconteça rapidamente?

Dra. Milene Bissoli – O que a gente consegue fazer de prevenção de perda auditiva hoje é ruído. De uma maneira bem categórica, o que a gente consegue fazer é diminuir a nossa exposição ao ruído, então é essa questão do fone de ouvido, evitar ambientes barulhentos. Por exemplo, vai para um show, uma balada – quando a gente puder voltar a fazer isso um dia, quem sabe -, sempre pensar em sair do ambiente por um tempo. A cada uma hora tentar sair do barulho mais intenso para depois voltar. Não usar o fone de ouvido, não aumentar muito o volume do som no carro. Essa é a prevenção que a gente tem para fazer no dia de hoje. Cuidar das doenças que a gente desenvolve no decorrer da vida, evidentemente. Mas não tem nenhum medicamento aprovado que diminua o risco de perda auditiva.

 

Drauzio – Você estava falando e eu estava lembrando de uma vez que fui ao ensaio de uma escola de samba. Eles colocaram a bateria em um volume absurdamente alto que eu fiquei tampando os ouvidos com as mãos, eu não tinha levado nenhum protetor. E, no dia seguinte, eu estava meio surdo. Eu senti que eu ouvia mal. Na verdade, até um pouco de tontura. Depois de alguns dias, eu já estava bem melhor. Qual é a explicação para essa perda tão súbita? 

Dra. Milene Bissoli – Sempre que temos exposição ao ruído, a gente vai ter o chamado estresse oxidativo nas nossas células. Nesse momento, a gente tem uma chance dessa perda não se tornar permanente. A maioria das pessoas que já foi a um show ou a uma balada chega em casa e, na hora de dormir, sente aquele zumbido, aquele barulho lá no fundo. É o que a gente chama de perda auditiva transitória pelo estresse oxidativo, em que a célula consegue, de algum jeito,  se recuperar. Se a gente tiver uma perda persistente ou se isso for frequente, a célula não dá conta de eliminar esses radicais livres de dentro dela e a gente tem uma perda definitiva. 

 

Drauzio – Me diz uma coisa: qual é o tipo de som que provoca mais perda auditiva? Sons graves, sons agudos?

Dra. Milene Bissoli – Na verdade, é a intensidade, é o volume do som que vai interferir diretamente. Mais o volume do que o tipo, do que a frequência.

 

Veja também: Causas da perda de audição na velhice

 

Drauzio – Quando você diagnostica uma perda auditiva? Primeiro, como é que você faz o diagnóstico? A pessoa fala: “Eu acho que estou escutando mal”. Alguns desses têm realmente uma perda auditiva, outros não. Como é que você diferencia?

Dra. Milene Bissoli – Tem um exame que se chama audiometria, o mais indicado para a gente avaliar a audição. Quem faz o exame é sempre o fonoaudiólogo, depois a pessoa passa em um otorrino, a gente vê se, de repente, ela não tem cera ou alguma coisa e faz a audiometria. A audiometria dá um gráfico da audição da pessoa. É muito interessante, porque ela distribui a frequência, que seriam os sons graves e os sons agudos, como as notas do piano; e a intensidade que é o volume. Para cada frequência que a gente escuta, pode ter uma intensidade diferente. A gente pode ter, por exemplo, os sons graves preservados e uma perda só nas frequências agudas. E a audiometria vai nos dar essas respostas.

 

Drauzio – E aí quando você diagnostica a perda auditiva pela audiometria, como é que você encaminha o tratamento?

Dra. Milene Bissoli – Aí vai depender do tipo de perda. A gente pode ter o que chamamos de condutiva, que é a perda de amplificação do som que é, por exemplo, otite média na criança. A gente tem um catarro atrás do tímpano e isso impede que o som se amplifique adequadamente. Ou a gente tem a perda do tipo sensório-neural que é a do ruído, por exemplo, a qual leva as células da cóclea e esta não consegue transmitir o som para o cérebro. Ou problemas no nervo auditivo. A audiometria dá isso. Seriam as causas mais comuns dos tipos de perdas.

 

Drauzio – E quando é que você recomenda o uso de um aparelho auditivo?

Dra. Milene Bissoli – A partir do momento que a gente fez o diagnóstico de perda auditiva e que seja uma perda para a qual não há tratamento cirúrgico, por exemplo, eu recomendo aparelho auditivo no minuto seguinte. A perda auditiva em si no longo prazo vai acarretar problemas. Eu tenho usado muito essa parte da função cognitiva e tudo mais, então, se a pessoa puder usar o aparelho auditivo assim que ela tiver uma perda que a gente sabe que está estável, já vale a pena. 

A gente não precisa fazer o cérebro “sofrer”. É mais ou menos que nem os óculos: eu uso óculos ou lente de contato, consigo passar meu dia sem óculos, mas meu dia é muito mais difícil. O cérebro precisa fazer um esforço muito maior para chegar no final do meu dia. Com a audição é a mesma coisa. A gente não precisa esperar um nível determinado de audição para fazer um teste com aparelho auditivo, por exemplo.

 

Veja também: Aparelhos auditivos | Entrevista

 

Drauzio – Por que existe esse preconceito com as pessoas em relação ao aparelho de audição? Você vai ao oftalmologista, ele diz: “vou te dar uma receita de óculos”. As pessoas vão a farmácia, a ótica, comprar uma armação charmosa e usam óculos com toda a tranquilidade. E na hora de colocar um aparelho para audição é uma restrição grande. 

Dra. Milene Bissoli – Essa é uma excelente questão e é realmente um problema que a gente esbarra: o preconceito das pessoas em usarem o aparelho auditivo. Eu tenho bastante esperança que divulgando mais essa questão da importância da audição no funcionamento do cérebro no longo prazo, a gente consiga reverter um pouco isso. 

As pessoas pensam: “Ai, aparelho auditivo significa que não sou mais tão jovem e tudo”. No Brasil, tem muito essa preocupação com a aparência, aparentar sempre ser jovem, mas acho que isso tem mudado um pouco. É muito importante a gente divulgar essas questões: o quanto não escutar bem pode te prejudicar no decorrer da vida, até em questão de isolamento, depressão. A pessoa, às vezes, até desiste de falar, porque ela fala alguma coisa, a pessoa responde, ela não entende e vai se fechando. O aparelho traz isso de volta, é muito bonito.

 

Drauzio – Esse é o preconceito da pessoa contra usar o aparelho. E o preconceito das outras pessoas com as pessoas que estão surdas parcialmente. Você pega uma pessoa e diz: “Fulano de tal é cego”. Todo mundo tem a maior consideração, ajuda. Quando você diz que está perdendo a audição, que ouve mal, ninguém tem paciência com quem ouve mal. Está errada essa minha impressão?

Dra. Milene Bissoli – Não, acontece mesmo. A gente fala que a surdez é uma deficiência invisível, porque a pessoa passa e você não vê nenhuma dificuldade nela. “Por que essa pessoa não está me respondendo? Por que essa pessoa não me entende?”. Eu não sei explicar exatamente porque isso acontece, mas a gente vê muito no dia a dia. Com mais conscientização e mais espaço para falar sobre perda auditiva, eu espero que isso possa mudar.

 

Drauzio – Especialmente porque a faixa da população que mais cresce no Brasil é aquela que está acima dos 60 anos. Nós vamos ter cada vez mais deficientes auditivos na vida cotidiana. 

Dra. Milene Bissoli – Sem dúvida. É uma questão importantíssima e é muito legal ter espaço para falar disso e tentar desmistificar um pouco isso. 

 

Drauzio – Às vezes eu vejo que uma pessoa que escuta mal e ela escuta melhor quando você fala de frente para ela, porque aí ela lê um pouco dos seus lábios também. E as pessoas não têm paciência de fazer isso. Falam pelas costas do outro e se irritam por ele não ter entendido o que foi dito.

Dra. Milene Bissoli – Uma coisa que é legal é assim: para a pessoa que tem deficiência auditiva, vale aquilo que eu falei para a criança – o cérebro não consegue separar o que é ruído e o que é voz. Para a pessoa que tem deficiência auditiva ou para um idoso que deveria colocar o aparelho, mas não coloca, ou mesmo que colocou o aparelho e ainda não está bem adaptado, é muito importante falar de frente e, sempre que possível, no silêncio. Porque o cérebro vai perdendo essa capacidade de separar o que é ruído e o que é a fala. Essa é uma dica bem importante também.

 

Drauzio – Milene, para a gente terminar, fala um pouquinho sobre o implante coclear. Quando ele está indicado? De que maneira deve ser usado? 

Dra. Milene Bissoli – O implante coclear é uma tecnologia diferente. O aparelho auditivo é como se aumentasse o volume do ambiente, como se fosse uma caixa de som que aumenta o volume. O implante coclear está indicado para os casos onde o aparelho auditivo não dá conta da perda da pessoa. Tem que ser uma perda realmente muito importante, aquela pessoa que não escuta nada, nem com aparelho. 

Ele é um eletrodo que vai “substituir” a função da cóclea. É implantado cirurgicamente na cóclea, no “caracolzinho” da cóclea, e vai estimular diretamente o nervo auditivo. Então, a qualidade de som é diferente, mas ele restaura a audição para as pessoas que têm uma perda muito profunda, muito importante, ou, por exemplo, para essas crianças que nascem surdas. Quando a gente faz um implante precoce, elas têm um desenvolvimento da fala, leitura e escrita normal, depois do período de adaptação. 

 

Veja também: Implante coclear: Alternativa para casos de perda de audição

 

Drauzio – Ele é indicado em que casos?

Dra. Milene Bissoli – Em casos de surdez profunda bilateral.

 

Drauzio – Os resultados costumam ser bons?

Dra. Milene Bissoli – Os resultados são bons. Não é simples, porque a pessoa vai precisar de um acompanhamento fonoaudiológico para a vida. O implante precisa ser ajustado de tempos em tempos. Mas os resultados são muito bons. Tem pacientes que, por exemplo, conseguem uma coisa que a gente considera muito difícil que é falar no telefone, porque não tem a pista visual, não consegue fazer uma leitura orofacial. 

Eu atendi um paciente há duas semanas que é implantado. A gente estava de máscara: eu de máscara, ele de máscara e o acompanhante de máscara. E a consulta fluiu normalmente. A gente considera isso um sucesso total. 

 

Drauzio – Milene, e quanto a esses carros que passam, o cara está a 300 metros de você, virando a esquina e você está ouvindo aquele som batendo o tempo inteiro. Esse som todo destrói células auditivas na pessoa que está ouvindo, dentro do carro? 

Dra. Milene Bissoli – O som alto sempre tem um potencial de causar uma lesão celular irreversível. Quanto maior o tempo de exposição, maior o risco. Então, por exemplo, a pessoa está nesse carro. Ficou meia hora, uma hora, duas horas dentro desse carro com som intenso.  Aí ela sai do carro e fica com um barulho, com aquele zumbido. A gente sabe que houve uma lesão celular sim, certo? Se essa lesão vai ser persistente ou não, a gente não tem como saber naquele minuto. Por isso que a gente pede para evitar, porque você não tem como prever, não tem como se prevenir de outra forma. Então, esse zumbido depois de uma exposição ao ruído indica uma lesão celular, a gente não sabe se ela vai conseguir ser reparada ou não.

 

Drauzio – Então, para finalizar, vamos resumir os conselhos para as pessoas manterem uma audição na melhor condição possível pelo máximo de tempo. 

Dra. Milene Bissoli – Eu acho que a melhor dica que eu posso dar, o melhor conselho, é: não se exponha a ruído. Se exponha ao ruído apenas se for muito necessário e pelo menor tempo possível. No dia a dia, evitar ruídos altos, evitar som alto em casa, no trabalho, no fone de ouvido, no lazer, porque a gente não tem como reverter a perda pelo ruído. Então, de tudo que a gente pode fazer pela nossa audição, cuidar da exposição ao ruído é o mais importante.

 

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Drauzio Varella

Hospitais privados têm insumos para intubação para somente mais 4 dias

A falta de insumos não preocupa somente os gestores dos hospitais privados. Hospitais públicos brasileiros já enfrentam o mesmo problema e vivem colapso.

 

A Associação Nacional de Hospitais Privados (Anaph) divulgou hoje (25.03.2021) que a grande maioria dos hospitais que fazem parte da associação está com seus recursos para intubação em fase crítica. A previsão é que os insumos sejam suficientes somente para os próximos quatro dias.

Segundo o diretor executivo da Anaph, Marco Aurélio Ferreira, os associados já definiram a estratégia de acesso a fornecedores internacionais, por meio de importações extraordinárias dos produtos em falta. Tal possibilidade apenas tornou-se viável pela sensibilidade demonstrada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), ao alterar procedimentos administrativos de modo a permitir as importações no menor tempo possível. “Ainda assim, o tempo médio para os insumos chegarem ao país é de mais de 20 dias”, afirma Ferreira.

A escassez de medicamentos não preocupa somente os gestores dos hospitais particulares. Hospitais públicos e as santa-casas também estão enfrentando dificuldades.

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Recentemente, a Associação de Medicina Intensiva Brasileira (Amib) emitiu, em conjunto com outras entidades médicas, recomendações sobre o manejo de medicamentos analgésicos, sedativos e bloqueadores neuromusculares essenciais para intubação, manutenção de ventilação mecânica e anestesia diante do quadro de escassez. No documento, há estratégias excepcionais que visam possíveis substituições medicamentosas em caso de falta.

Uma médica pneumologista que preferiu não se identificar disse que a situação está crítica nos hospitais de São Paulo. “Está faltando tudo. Não tem dexametasona, estão usando outros corticoides, não tem tocilizumabe, remdesivir, medicamentos importantes para tratar os pacientes graves com covid-19.”

 

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