Você merece que te olhem nos olhos

Hoje é dia do profissional de nutrição, e acho mais do que pertinente falar sobre algumas questões que muito me afligem, que devem ser faladas e que têm um impacto muito importante na maneira como as pessoas pensam a sua relação com a comida e na forma como se alimentam.

Como faço muito uso das redes sociais com o blog, facebook e instagram falando sobre o meu trabalho e naquilo que acredito no que diz respeito à alimentação, culinária, estilo de vida e etc., é muito frequente receber mensagens de pessoas querendo fazer consultas online, ou pedindo dicas de dietas para emagrecer, entre outras questões importantes que afetam a saúde.

Com tantos canais de informação, hoje quase todo mundo se acha habilitado a palpitar no que pode e no que não pode comer e indicar dietas para emagrecer, o que comer antes ou depois do “treino”, que suplementos usar para ganhar massa muscular, como ganhar massa magra… entre outros termos  e recomendações que caíram na boca do povo.

Em primeiro lugar, muita atenção com quem você segue nas redes sociais. Cuidado com as dicas das “blogueira fitness” e da turma do “projeto verão todo ano a mesma coisa com modinha diferente”. Não é porque a coleguinha do blog emagreceu 11 quilos em uma semana comendo clara de ovo que você vai se meter nessa, né?! Além disso, o que funciona para um não funciona para o outro (e vamos pensar sobre o que é esse “funcionar”, vale tudo para emagrecer?!), é preciso respeitar a individualidade de cada um! Cada pessoa tem particularidades bioquímicas e necessidades específicas. Não pega a dieta da amiga emprestada não! A dieta foi pensada para ela.

A profissão de nutricionista é séria, importante e necessária. O profissional de nutrição não existe apenas para ajudar as pessoas a emagrecer! O foco não é esse, certo?!

Em segundo lugar, acho muito importante ressaltar e esclarecer que o Código de Ética do Nutricionista (resolução CFN 334/2004) não permite consultas online. Isso, porque uma consulta nutricional deve envolver todas as etapas de avaliação e diagnóstico nutricional para a prescrição de uma dieta com um determinado fim, orientações e acompanhamento. O profissional de nutrição precisa olhar para o paciente, precisa olhar as unhas, o cabelo, a pele, e principalmente os olhos! Nada substitui a presença, e você merece ser olhado nos olhos. Todo mundo merece!

Claro, juntamente com as consultas presenciais, o profissional de nutrição pode usar canais eletrônicos para ter contato com o paciente, mas estes nunca devem ser os meios exclusivos de contato. Por isso, amigas e amigos, se tem nutricionista te atendendo somente online tem alguma coisa errada, hein! Vamos ver isso aí!

E agora, aproveitando o ensejo (rss), gostaria de lembrar aos meus queridos e queridas que me seguem e acompanham o meu trabalho, que eu já não atendo mais em consultório. Como já contei, troquei o jaleco pelo avental, e fui para onde tudo acontece: a cozinha! Meu foco é mostrar outras possibilidades de alimentação, e ensinar a fazer comida de verdade, cheia de sabor, cor, textura, cheiro… comida que nutre o corpo e também a alma. Embora fora do consultório, a nutrição nunca deixou de fazer parte da minha vida, porque a base do meu trabalho está lá, e não é à toa que a minha comida é bem nutrida 😉

Parabéns a todas e todos profissionais de nutrição!

♥♥♥ Beijos ♥♥♥

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Fale com a Nutricionista

Gordura saturada supera a concorrência

Em um novo estudo, na verdade, uma meta análise de diversos estudos prospectivos de coorte foi feita com o objetivo de entender melhor a relação entre o consumo de gorduras trans e gorduras saturadas e o risco de mortalidade geral, por doenças cardíacas, diabetes e acidente vascular cerebral isquêmico (AVC Isquêmico).

Gordura saturada meta analise

O consumo de gorduras saturadas que são encontradas em diversos alimentos naturais não foi relacionado com a mortalidade total, tampouco com diabetes, AVC e doenças do coração. Entretanto, o consumo de gorduras trans, uma gordura com a estrutura molecular quimicamente alterada durante seu processamento industrial, foi associada com a mortalidade total anual (mortalidade por todas as causas), exceto Isquemia e diabetes tipo 2.

O consumo de gorduras trans industrial foi associada a mortalidade por doenças cardiovasculares, mas não a gordura trans encontradas em quantidades muito limitadas em animais de pasto, como bois, cabras e cordeiro, do mesmo modo que a gordura saturada destes animais não foi relacionada a nenhuma causa de mortalidade. A conclusão do estudo foi a seguinte:

Conclusions: Saturated fats are not associated with all cause mortality, CVD, CHD, ischemic stroke, or type 2 diabetes, but the evidence has methodological limitations. Trans fats are associated with all cause mortality, total CHD, and CHD mortality, probably because of higher levels of intake of industrial trans fats than ruminant trans fats. Dietary guidelines must carefully consider the health effects of recommendations for alternative macronutrients to replace trans fats.

Conclusão do estudo:

Gorduras saturadas não são associadas à mortalidade por todas as causas, doenças cardiovasculares, doenças coronárias, AVC isquêmico, ou diabetes tipo 2, mas a evidência possui limitações metodológicas. Gorduras trans são associadas com a mortalidade por todas as causas, provavelmente devido ao consumo de altos níveis de gorduras trans industrial, ao invés da gordura trans de animais ruminantes. As diretrizes nutricionais devem considerar cuidadosamente o efeito na saúde de recomendações para substituir as gorduras trans.”

Os resultados deste estudo, alinhados a outros estudos sobre o tema, demonstram que o foco na redução da gordura saturada como fator preventivo da aterosclerose e causas de morte não é suportada pelos dados estatísticos. A teoria lipídica há muito tempo vem sendo questionada e colocada contra a parede devido à falta de evidências na contribuição para as doenças do coração.

Em retrospectiva, é importante salientar sobre o estudo japonês recente, com mais de 50 mil participantes, que indica que níveis baixos de consumo de gordura saturada aumentam o risco de morte por AVC, com resultados que sugerem que o mesmo pode acontecer com no processo aterogênico que leva a doenças do coração.

Não preciso lembrar vocês de que neste ano de 2015 nos Estados Unidos e a “A Academia de Nutrição e Dietética”, a maior organização mundial de profissionais de alimentação e nutrição recomendou que se tirasse a gordura saturada e o colesterol dietético da lista de preocupações para a saúde. Então, por que ainda estamos discutindo sobre isso? Provavelmente porque as pessoas precisam saber a verdade sem distorções, em meio a promiscuidade gerada pela mídia e por questões políticas.

Para colocar em perspectiva para vocês leitores do blog, estudos clínicos e randomizados são o maior grau de evidência científica, enquanto estudos observacionais como estes, a princípio, fornecem evidência mais inconclusivas, que na verdade nem são chamados de evidência até que sejam de fato testadas e confirmadas pelos ensaios clínicos controlados. No caso da gordura saturada, o seu consumo em geral tem gerado desfechos positivos nos estudos controlado, e portanto gravitam em direção ao suporte da hipótese das observações.

Do mesmo modo que não há evidência observacional para a restrição da gordura saturada dos alimentos, tampouco há evidência clínica para sua limitação, visto também que dietas low-carb e paleolíticas testadas por uma abundância de experimentos demonstram ser muito úteis na redução do peso, saciedade e melhora dos biomarcadores de saúde.

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Seu Dorival e os tapas na cara

A mulher corpulenta parou na porta do botequim, olhou para o fundo e caminhou a passos duros na direção do casal na mesinha com a cerveja.

– Seu cachorro, ordinário. Tá fazendo o quê com essa vagabunda?

O cachorro ordinário era Dorival, seu ex-marido, um mecânico de abdômen avantajado, de bermudão e havaiana, sentado bem perto de Soninha, morena oxigenada, vinte anos mais nova do que ele e a mulher de seios fartos que a agarrou pelos cabelos e derrubou a mesa, a garrafa e o pratinho de salame com os palitos e as rodelas de limão.

A desigualdade de estatura desequilibrava a refrega em favor da invasora que chacoalhava a cabeça da inimiga, com a intenção aparente de arrancá-la do pescoço. Aos pedidos de calma, muita calma, Dorival se interpôs entre as contendoras, intervenção que teria obtido êxito não fosse a joelhada recebida nas partes baixas.

Com o corpo arqueado pelo golpe, pediu ajuda aos circunstantes, todos eles vizinhos e amigos da Vila Nova Cachoeirinha, nenhum dos quais se dignou a socorrê-lo. Valdemar, conclamado pessoalmente para interferir em nome da amizade desde os tempos de meninos, limitou-se a murmurar: “Eu, hein!”

Quando resolveu parar, a agressora largou a cabeça chacoalhada, meteu as unhas no rosto da moça e na careca do ex-marido que teimava em contê-la, endireitou o corpo, esticou a blusa e alisou o cabelo com as mãos, virou dois tapas na cara do ordinário sem-vergonha e abriu caminho decidida entre os curiosos aglomerados no balcão.

Dorival e a ex-esposa, conhecida por todos como Terezona, tinham se separado depois de vinte e cinco anos de vida em comum e dois filhos, um dos quais casado. Separação civilizada, a ponto de morarem a uma quadra de distância: ela e o filho solteiro no conforto do sobrado adquirido pelo casal, ele num quarto e sala alugado de uma tia.

O divórcio informal fora acertado em comum acordo. Segundo ela, para se livrar da falta de consideração do marido que dava mais importância aos amigos do bar do que à esposa esperando horas, feito tonta, com o jantar à mesa. De acordo com ele, a causa dos desentendimentos constantes era o gênio encrenqueiro da mulher:

“Conta para mim, que homem aguenta uma mulher buzinando na orelha dele, o tempo inteiro”.

Depois de meses discutindo o formato da separação, acertaram uma cláusula pétrea: teriam liberdade para levar a nova vida como lhes aprouvesse, desde que não expusessem o outro ao falatório da vizinhança.

O entrevero acontecera num bar da avenida mais movimentada do bairro, quando o casal já vivia em casas separadas há quase um ano, fase em que Dorival caíra encantado por Soninha, passista da Camisa Verde e Branco, a ponto de desfilar com ela pelas redondezas sem dar ouvidos ao amigo de infância que mais tarde lhe negaria auxílio na briga do botequim, o experiente Valdemar:

“Meu, você está aí todo moderninho, tirando uma de divorciado, mas o dia que a Terezona descobrir a desfeita, com uma mulher vinte anos mais nova do que ela, la maison va tomber”.

Os meses se passaram, e a paixão por Soninha esfriou na mesma medida em que o relacionamento com a ex-mulher se tornava mais próximo.

Na saída da maternidade, no dia em que nasceu a primeira neta, o casal se reconciliou. Antes de voltarem a residir sob o mesmo teto, no entanto, Dorival achou por bem ser honesto com a namorada que não esperava perdê-lo “de uma hora para outra, sem ter feito nada de errado”, conforme se queixou, aos prantos.

Domingos mais tarde, Terezona completou 52 anos. Dorival reuniu os filhos, a nora, dois casais de cunhados, três sobrinhas e a sogra na pizzaria mais concorrida da Nova Cachoeirinha.

Na hora em que o garçom servia os pratos, do nada, apareceu Soninha com ar de poucos amigos, deu com a bolsa em duas garrafas enormes que esparramaram refrigerante pela mesa, jogou quase uma pizza inteira no rosto de Terezona, xingou Dorival de cachorro ordinário, deu-lhe dois tapas estalados na cara, virou as costas e saiu enfezada, sem que qualquer dos presentes ousasse esboçar reação.

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